A Fora de Série entrevistou em exclusivo Alessandro Gualtieri, fundador das casas Orto Parisi e Nasomatto. Um criador que trata o corpo como um jardim e compõe perfumes “vivos”, feitos para desafiar.
Alessandro Gualtieri não cria perfumes: liberta instintos. Cada frasco é uma pequena rebelião contra a ideia de perfeição — uma tentativa de devolver ao olfato aquilo que a sociedade tenta apagar: o corpo, o suor, a carne. Criador das casas Orto Parisi e Nasomatto, Gualtieri fala do cheiro como quem fala de uma emoção. É cru, intempestivo e lúcido. Acredita que a beleza nasce do erro e que a harmonia é apenas outra forma de tédio.
Diz que começa sempre pelo estômago — nunca pela cabeça. Trabalha rodeado de frascos e caos, movido por uma urgência quase física. “Penso pouco, sinto muito”, confessou-nos, num tom entre o desabafo e a provocação. Nas suas mãos, o perfume é uma matéria viva que respira, muda e resiste ao controlo. “O perfume deve dar prazer, mas também deve morder”, acrescentou, com um sorriso que mistura ironia e convicção.
Chamam-lhe The Nose — o nariz —, e o título parece-lhe tão inevitável quanto insuficiente. Mais do que um perfumista, Gualtieri é um provocador que usa o olfato como linguagem filosófica. As suas criações exploram o lado carnal da beleza, o lugar onde o corpo e o tempo se confundem, e onde o perfume deixa de ser acessório para se tornar confissão.
Foi com esse espírito que o perfumista italiano esteve em Lisboa, convidado da Fashion Clinic para o Scented Tales, um ciclo de conversas e experiências olfativas que transforma a Fragrance Room num espaço de descoberta sensorial. Trouxe consigo duas criações da Orto Parisi — Risvelium, um despertar luminoso e terroso, e Cuoium, um estudo sobre o couro e o tempo — mas acabou por apresentar muito mais: uma visão sobre o corpo, a imperfeição e o papel quase ilusório da beleza. “O corpo é o nosso jardim”, recorda, evocando a imagem do avô Vincenzo, que recolhia o que a vida dava e o devolvia à terra.
No final, quando lhe perguntámos a que cheira o mundo de 2025, respondeu sem hesitar: “A nada. Porque não existimos realmente.”
A sua abordagem à perfumaria é muito visceral, quase como uma extensão do corpo. O que o move quando começa um novo perfume?
Primeiro, o estômago. Sou sensitivo, uso o instinto — as entranhas, não a cabeça. Penso pouco, sigo a intuição. Imagino uma parede cheia de ingredientes e vou escolhendo o que me atrai naquele momento. É um processo de tentativa e erro, mas também de contraste. Um perfume tem de agradar e, ao mesmo tempo, dar um murro. Precisa de atração e repulsa. Se algo é apenas bonito e perfeito, torna-se aborrecido. Gosto do que é imperfeito — é isso que o torna especial.
Pode dar um exemplo dessa combinação entre atração e repulsa?
Depende. O que me fascina pode ser repulsivo para outro. O perfume é profundamente subjetivo. Mas há uma linguagem comum — às vezes criamos algo e, sem perceber como, muitas pessoas se ligam àquele cheiro. É química, é magia. Nem eu próprio sei explicar.
Num tempo em que tantas marcas seguem tendências, o que significa criar uma fragrância verdadeiramente livre?
Significa não olhar para o lado. No início, cheirava tudo o que saía, queria ver o que os outros faziam. Hoje, já não. Não quero saber. O caminho faz-se sem mapa. É um processo de descoberta constante — e também de frustração. Trabalho muito e deito muita coisa fora. Aborreço-me depressa. Criar algo que me continua a intrigar dois meses depois é difícil. Quando isso acontece, sei que valeu a pena.
É conhecido por desafiar o gosto e o conforto. A beleza precisa de ser desconfortável?
A questão é: o que é beleza? Falaram-nos de simetria, de cor, de luz — mas isso é apenas convenção. Para mim, a beleza está na matéria. No linho, na madeira, no mármore, no químico. Trabalho com materiais, não com ideias. É neles que encontro o sublime.
Trabalha com ingredientes naturais, sintéticos, memórias, instintos. Onde começa realmente o seu processo criativo?
Em lado nenhum — e em todo o lado. Começa com uma centelha de entusiasmo, uma vontade de experimentar algo. Às vezes pára logo; outras, continua até algo ganhar forma. É um jogo. Um jogo que tanto pode ser alegria como sofrimento. Há noites em que não durmo, dias em que tudo vai para o lixo. Mas é assim que descubro.
Como sabe que um perfume está terminado?
Nunca está. Podia trabalhar nele até morrer. Mas chega um momento em que o declaro pronto — e, a partir daí, não quero voltar a cheirar. Não uso os meus perfumes. Experimento-os na pele enquanto estou a criar, mas depois de terminados, afasto-me. Já vivi demasiado com eles.
Disse uma vez que um perfume deve cheirar à pessoa que o usa. Como concilia isso com criações tão marcantes?
As pessoas complicam demasiado o perfume. É só mais uma camada — como a roupa. Hoje veste-se preto, amanhã amarelo. O perfume é o mesmo: uma escolha momentânea, emocional. Uns ligam-se pela memória, outros pela curiosidade. O olfato existe desde sempre. O resto são construções.
O corpo humano e os seus cheiros são uma referência constante no seu trabalho. Ainda o vê como território inexplorado?
Claro. Hoje as pessoas fazem de tudo para não cheirar a si mesmas — desinfetam, branqueiam, lavam-se até apagar o rasto. Cresci num tempo em que o banho era ritual semanal e aprendíamos a reconhecer o nosso cheiro. Somos feitos de carne, suor, feromonas. Negar isso é negar a vida. Curiosamente, as melhores vendedoras de perfume que conheci cheiravam fortemente a si próprias. É química. Atraem porque são reais.
O nome Orto Parisi sugere um jardim pessoal. Que parte de si vive nesse jardim?
Metade da minha vida, pelo menos. Desde 2018 tenho uma quinta onde cultivo oliveiras e videiras. Levo isso muito a sério. É trabalho duro, mas é uma continuação lógica do perfume — ainda líquidos, só que bebíveis. (ri-se) No fundo, tudo o que me interessa é matéria viva. E em qualquer mercado — perfumes, vinhos, moda — há autenticidade e há muito disparate. Só se distingue experimentando. Como no vinho, tem de cheirar, provar, brincar.
Na Nasomatto, cada perfume parece provocação. Quando percebeu que o nariz podia ser instrumento de revolução?
Nasceu da raiva. Há quem, quando se sente mal, grite ou bata. Eu fiz perfumes. Nasomatto foi a minha forma de libertar frustração — uma reação a um estado emocional intenso. Já a Orto Parisi é mais consciente, mais madura, mas ambas nascem da mesma obsessão.
Acredita que o perfume ainda pode ser uma forma de arte?
Hoje tudo é arte e tudo é marketing. A fronteira dissolveu-se. A arte também se tornou mercado. Talvez daqui a dez anos tenhamos de reinventar o que significa “arte”. O tempo encarrega-se disso.
O criador é hoje quase uma marca. Como lida com essa exposição?
Com cansaço. Viajei muito, mostrei demasiado. Agora prefiro o silêncio. Mas confesso: fiquei impressionado com o espaço da Fashion Clinic. A arquitetura, os materiais, a luz — é um trabalho notável. Mostra que o bom gosto ainda existe, mesmo num tempo em que tudo se massifica. E gosto de ter ali um cantinho para as minhas criações.
Se pudesse destilar o mundo de hoje num único cheiro — o cheiro de 2025 — a que cheiraria?
O que nunca faria num perfume?
Qual é o cheiro que guarda da sua infância?
Sangue. Cresci num talho. A minha família não tinha nada a ver com perfumes — apenas com carne. E isso ficou comigo. Somos corpo. A carne é a nossa origem.
E há algum cheiro que ainda o persegue?
Tento criá-lo. A natureza já existe, não há razão para copiá-la. Seria inútil. Prefiro reinterpretar — misturar, combinar, inventar o meu próprio caos. Caso contrário, o perfume seria tão aborrecido quanto o mundo que tenta cheirar.

















