No dia 22 de Novembro, a Cabral Moncada Leilões apresenta o primeiro leilão inteiramente dedicado à Bordallo Pinheiro — um gesto que devolve às faianças das Caldas da Rainha o seu estatuto de objeto-culto para colecionadores.
Certos momentos revelam a dimensão real de uma marca. O I Grande Leilão da Bordallo Pinheiro é um desses instantes: a passagem de um legado artístico para a esfera do colecionismo, onde o valor simbólico pesa tanto quanto a técnica. A 22 de Novembro, na Cabral Moncada Leilões, 153 peças cuidadosamente selecionadas entram em disputa num palco que lhes reconhece estatuto histórico e cultural.
A exposição abre a 20 de Novembro e a licitação online já está em curso. A parceria entre a fábrica das Caldas da Rainha e a leiloeira lisboeta sinaliza uma mudança subtil mas decisiva: a faiança de Bordallo, sempre vista como parte do nosso quotidiano, assume agora uma presença afirmada no mercado de arte e design.
A marca que nasceu da irreverência
A Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha surgiu em 1884 e rapidamente se tornou extensão direta do espírito de Raphael Bordallo Pinheiro (1846–1905). Caricaturista, ceramista, cronista dos costumes, Bordallo uniu tradição artesanal, humor e crítica social numa linguagem iconográfica que o país reconhece até hoje.
As suas peças, marcadas por naturalismo exuberante e personagens satíricas, abriram caminho para uma estética onde a folha de couve, a bilha com pegas ou o Zé Povinho deixam de ser objetos do quotidiano para se tornarem interpretações inteligentes da vida portuguesa. Sob o seu olhar nasceram criações estruturantes, como a Bilha com Pegas (1884–1905), hoje um símbolo do período fundacional.
O legado continuou com o filho, Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro, que introduziu leituras modernistas e ampliou o repertório naturalista com peças como o Prato Decorativo – Maçãs (1908–1920). Em 2009, com a aquisição pelo Grupo Visabeira, iniciou-se uma nova etapa: recuperação de técnicas tradicionais, reedições do arquivo histórico e colaborações com artistas contemporâneos como Joana Vasconcelos, Paula Rego, Estúdio Campana, Vik Muniz ou Pedro Cabrita Reis. A marca regressou, assim, ao centro das conversas internacionais sobre artes decorativas e design.
Peças raras que contam uma história
O leilão apresenta um retrato caleidoscópico da marca, reunindo peças de várias épocas. O Escarrador – Agiota (1908–1920) destaca a vertente satírica que sempre acompanhou Bordallo. A já referida Bilha com Pegas recorda a génese da fábrica, enquanto o Prato Decorativo – Maçãs reflete a evolução estética sob Manuel Gustavo.
Do universo contemporâneo, o Figo de Paula Rego impõe-se como peça de referência, sublinhando a continuidade do diálogo entre a fábrica e a arte contemporânea. Entre terrinas, travessas, esculturas naturalistas e figuras alegóricas, o conjunto ilumina um século e meio de experimentação, humor e técnica.
A Cabral Moncada Leilões, referência nacional em Antiguidades, Arte e Artes Decorativas, assegura toda a operação. Com uma atividade que atravessa leilões presenciais e online, avaliações, consultoria e formação especializada — através da Academia Cabral Moncada — a leiloeira tem desempenhado um papel essencial na valorização do design português.
Ao trazer a Bordallo Pinheiro para este contexto, reforça o posicionamento da marca num circuito internacional em crescimento, onde mercados como França, Itália, Reino Unido, Estados Unidos ou Japão já reconhecem a singularidade do fabrico português. A presença regular em prémios como os German Design Awards ou Iconic Awards confirma essa projeção.
Este leilão é um ponto de inflexão no percurso público da marca — a passagem de um legado afetivo para um património reconhecido no mercado global de arte e coleção.
Leiloeira: Cabral Moncada Leilões
Data: 22 de Novembro, 16h00
Exposição:
– 20 e 21 de Novembro: 14h00–19h00
– 22 de Novembro: 10h00–13h00
Local: Rua Miguel Lupi 12 A/D, 1200-725 Lisboa
Lugares: 90 lugares em sala (participação online disponível)
Licitação online: www.cml.pt














