Sob a sua liderança, a Breitling reinventou-se com ousadia e visão. Georges Kern chega a Lisboa para inaugurar a nova boutique, num momento que espelha a força criativa que tem marcado o seu percurso.
Desde que Georges Kern assumiu a liderança da Breitling, em 2017, a marca suíça atravessou uma das evoluções mais claras do setor. O estilo Modern Retro, a expansão para os universos de ar, terra e mar, o foco em comunidades e o reforço da sustentabilidade definiram um novo capítulo. Os resultados são visíveis: crescimento contínuo, relevância internacional e uma presença mais forte junto de novas gerações.
É neste momento que Kern chega a Lisboa — fiel ao princípio que repetiu mais do que uma vez durante a conversa: Carpe Diem. Uma expressão que, no seu caso, não soa a cliché, mas a método. É a síntese de uma forma de estar que combina urgência, liberdade e lucidez: fazer apenas o que faz sentido, investir tempo no que acrescenta, transformar o que precisa de ser transformado.
A nova boutique da Breitling na Avenida da Liberdade, inaugurada este mês, nasce dessa mesma filosofia. É um espaço que alinha Lisboa com cidades-chave como Paris ou Nova Iorque, trazendo ao mercado português a mesma identidade arquitetónica e narrativa que hoje distingue a marca – urbana, descontraída, contemporânea.
Antes da abertura oficial, sentámo-nos com o CEO para uma conversa que passou por criatividade, risco, tecnologia, sustentabilidade, viagens e pela forma como se mede o tempo quando se sabe exatamente o que fazer com ele.
A Breitling mudou profundamente sob a sua liderança. Olhando para trás, qual foi o momento mais decisivo desta transformação?
É sempre uma combinação de fatores. O erro maior, quando se tenta transformar uma marca, é parar a meio. Há quem não atravesse a ponte inteira: ficam entre o passado e o futuro – e isso é o pior lugar possível. Nós fomos até ao fim, fizemos mudanças profundas no portfólio de produto, no posicionamento, na publicidade, e na aparência das boutiques. E só o conseguimos tão rápido porque tínhamos autonomia: num grande grupo não teria sido possível. Como empreendedor, arrisquei mais – mas foram riscos calculados.
Costuma dizer que “só o sucesso prova que estamos certos”. Que tipo de risco o entusiasma mais: o criativo, o comercial ou o humano?
Gosto muito da parte criativa. Estamos a lançar duas marcas para o próximo ano, Caillet e Universal Genève. Trabalhar no renascimento de marcas adormecidas é extraordinário. Toda a gente pensa que o meu trabalho é glamoroso e cheio de festas – não é. Trabalhamos tanto quanto qualquer outra indústria. A criatividade é a parte bonita; os outros 80% são gestão, como em qualquer empresa.
O estilo Modern Retro tornou-se um manifesto estético da Breitling. Como o traduz do design para a comunicação?
Intuitivamente. Primeiro definimos um estilo mais casual, muito preto e branco. Depois, com a Lady Premier, criámos um estilo feminino com outra atitude – mais leve, mais elegante, mais lúdica. Criámos uma linguagem que nos distingue: somos a alternativa casual e acessíve numa indústria que leva tudo demasiado a sério. Trabalhamos com comunidades – surfistas, triatletas, a NFL – porque o que importa é o estilo, não idade ou género.
Quando fala em “luxo acessível”, refere-se a preço, atitude ou experiência?
É a atitude. Quero que a marca seja intelectualmente acessível. No meu passado, tudo era ‘exclusivo’, ‘à porta fechada’, ‘em apartamentos privados’ – não gosto dessa ideia. Não corresponde ao que as pessoas procuram. Querem partilhar experiências autênticas, sentir que pertencem a uma comunidade. Claro que somos exclusivos pelo preço e pela distribuição, mas o tom da marca tem de ser aberto. Depois da pandemia aprendemos que a vida é curta: é para viver, para aproveitar. Carpe diem.
Falemos de inovação. Que avanço técnico recente ainda o impressiona, depois de três décadas na relojoaria?
Para mim, a grande revolução é a inteligência artificial. É absolutamente transformadora – mais do que o Google, o e-mail ou o Spotify.
E como imagina o impacto da inteligência artificial na Breitling ou na própria indústria relojoeira?
Usamo-la no trabalho do dia-a-dia, claro – mas o mais interessante é a transformação que trará ao mundo. Vai automatizar processos, substituir empregos, alterar indústrias inteiras. Mas há algo que a AI nunca terá: emoção.
A inteligência artificial trabalha sobre o passado, sobre padrões; nós criamos futuro. Pode escrever música, mas não cria um novo Mozart. Pode escrever um artigo sobre mim, mas eu nem me reconheço – falta-lhe estilo, falta-lhe alma.
E é exatamente por isso que a relojoaria está protegida: ninguém compra um relógio mecânico para ler as horas. Compra uma emoção, uma história, uma peça de arte. A nossa tecnologia não muda há 250 anos – e ainda bem. Um relógio é emoção, e a emoção não se programa.
A Breitling tem vindo a reforçar práticas sustentáveis. Que desafio sente ainda por resolver?
Sou defensor da sustentabilidade há 25 anos, mas tem de ser autêntica. O nosso foco mais sério é a luta contra os plásticos nos oceanos. O impacto é real, visível. Microplásticos estão em todo o lado – até no Ártico. E os surfistas, que fazem parte do universo Breitling, vivem isso todos os dias. É nisso que queremos atuar com convicção. O resto – CO₂, metas globais – é mais complexo e mais difícil de influenciar.
O renascimento da Universal Genève foi um gesto simbólico ou estratégico?
Não teve nada de simbólico: é uma decisão de negócio. A Breitling é muito bem-sucedida e queríamos fazer mais. Analisámos várias marcas para adquirir, mas não queria legados pesados – equipas, fábricas antigas, estruturas rígidas. Queríamos uma folha limpa. Perguntei à equipa de património quais eram as duas marcas ‘adormecidas’ com o potencial de uma Moncler ou de um Bugatti. Gallet e Universal Genève foram a resposta e agora estão a construir a House of Brands em conjunto com a Breitling. A Universal Genève ficará posicionada acima da Breitling, no segmento de super luxo, e funcionará como uma entidade totalmente independente; a Gallet complementará a oferta no segmento de entrada do luxo, com uma proposta mais acessível, tornando-se uma marca irmã da Breitling. Começaremos a vê-las ganhar forma já no próximo ano.
A nova boutique de Lisboa é parte deste novo capítulo. O que a torna significativa?
Portugal era um dos poucos mercados onde ainda não tínhamos uma boutique com a identidade correta. Agora temos o parceiro certo [David Rosas] e a localização certa. Quero que o cliente português tenha o mesmo nível de qualidade que encontra em Paris ou Nova Iorque. Temos quase 300 boutiques no mundo – 100 próprias – e trabalhamos diariamente com todas. Lisboa tem potencial: queremos tratá-la com rigor.
Como define o mercado português?
Não se podem ignorar a dimensão demográfica ou o peso económico. Portugal não é os Estados Unidos, mas cada país tem potencial – e o nosso dever é otimizá-lo, oferecendo exatamente o mesmo nível de produto e serviço. Pode ser um mercado mais pequeno, mas deve ser exemplar.
Viaja constantemente. Tem algum ritual que o ajude a aterrar em cada cidade?
Deixei de fazer check-in de malas. Viajo sempre leve. O transporte aéreo tornou-se cansativo: atrasos, bagagens perdidas. Prefiro simplificar. Depois, claro, tenho os meus hotéis, os lugares onde a equipa me conhece e onde tudo funciona: check-in rápido, internet fiável, serviço eficiente. Quando se viaja muito, isso faz toda a diferença.
Depois de tantos anos a medir o tempo, o que significa o tempo para si hoje?
Qualidade. Só faço o que quero fazer. Não vou a festas que não me dizem nada, não perco tempo com o que não importa. E penso muito na ideia de tempo finito: quantos verões temos pela frente, quantos Natais – em boa saúde. É isso que me orienta. E, claro, não quero arrependimentos. Carpe diem. Hoje faço relógios… e também produzo filmes e séries. Tenho muitas vidas – mas não as conto todas.
Morada: Avenida da Liberdade, nº12 – Lisboa
Tel.: 914426467
Horários: De segunda a sábado, das 10h00 às 13h00, das 14h00 às 19h00.

















