Na emblemática Avenida da Liberdade, um edifício distinguido com o Prémio Valmor renasce para acolher a flagship da Eleventy. Moda, arte e gastronomia cruzam-se agora sob os frescos de Almada Negreiros.
Lisboa tem destas ironias: um espaço onde antes se imprimiam palavras é agora lugar de contemplação, conversa e elegância. O antigo edifício do Diário de Notícias, no número 266 da Avenida da Liberdade, voltou a abrir portas — e fá-lo sob a insígnia da Eleventy, marca italiana que escolheu este endereço histórico para instalar a sua primeira flagship store em Portugal.
Inaugurado em 1940 e distinguido com o Prémio Valmor, o edifício é uma das obras mais notáveis do arquiteto Porfírio Pardal Monteiro, figura-chave do modernismo português. Foi o primeiro no país a ser desenhado de raiz para acolher um jornal, concebido como uma máquina funcional e, ao mesmo tempo, uma peça de arte. O traço rigoroso da fachada, em pedra lioz e betão armado, combina proporção, geometria e luz — uma linguagem arquitetónica que antecipava a Lisboa moderna que começava a desenhar-se.
Durante décadas, o Diário de Notícias imprimiu aqui as suas páginas, e com elas parte da história cultural e política do país. O edifício foi classificado como Imóvel de Interesse Público e é hoje um dos exemplos mais elegantes da articulação entre arquitetura, design e arte pública do século XX.
Os frescos de Almada e a alma do edifício
Entre os elementos que o tornam único estão os três frescos originais de Almada Negreiros, criados entre 1939 e 1940. O artista, então no auge da sua maturidade criativa, concebeu uma narrativa mural que sintetiza a ambição intelectual da época e o espírito da imprensa.
O Mapa-Múndi, o mais célebre dos painéis, estende-se como um universo de símbolos — continentes reinventados, figuras mitológicas, animais fabulosos e monumentos reconhecíveis — numa composição que representa o mundo ao alcance das notícias. É um hino à circulação da informação e ao cosmopolitismo que o jornal queria encarnar.
No mural oposto, Almada pinta o Processo da Imprensa: uma sequência visual que acompanha o ciclo completo da produção jornalística, desde a chegada das notícias à impressão, traduzindo em cor e movimento o pulsar das rotativas. É um fresco quase cinematográfico, precursor do dinamismo gráfico que viria a marcar o design português.
Por fim, o Mapa de Portugal ocupa a parede lateral, retratando o país rural e o seu ritmo sazonal — uma metáfora do tempo e da terra que contrasta com o frenesim da cidade e da informação. Ao reuni-los num mesmo átrio, Almada criou um tríptico de rara coerência: o mundo, a imprensa e Portugal — três dimensões inseparáveis da identidade moderna.
Hoje, quem entra na Eleventy Lisboa reencontra esses frescos na sua plenitude. A intervenção arquitetónica respeitou-os integralmente, devolvendo-lhes a visibilidade e a dignidade que o tempo e o uso anterior lhes haviam retirado.
Um diálogo entre herança e contemporaneidade
O projeto da nova loja foi confiado ao estúdio milanês Parisotto + Formenton Architetti, responsável por vários espaços da marca em cidades como Milão, Paris, Tóquio ou Nova Iorque. Em Lisboa, o desafio era delicado: intervir sem apagar, atualizar sem desvirtuar.
A solução foi encontrar harmonia entre o travertino e a madeira de carvalho-claro — materiais naturais, luminosos, de textura honesta — e as superfícies históricas do edifício. A iluminação discreta, os volumes generosos e o mobiliário feito à medida criam uma atmosfera serena que deixa respirar a arte e a arquitetura.
Fundada em 2007 por Marco Baldassari e Paolo Zuntini, e consolidada dois anos depois com a entrada de Andrea Scuderi, a Eleventy construiu a sua reputação a partir da ideia de smart luxury: um luxo funcional, ético e intemporal, desenhado para o ritmo da vida contemporânea. Produz exclusivamente em Itália, com materiais naturais e processos artesanais que privilegiam a qualidade e a durabilidade.
“Lisboa oferece autenticidade, energia criativa e uma elegância que se alinham profundamente com o espírito da marca”, afirmam Lurdes Cabral e Luca Nani, fundadores da Eleventy Lisboa. “Queríamos um espaço com história, carácter e identidade. O antigo edifício do Diário de Notícias tinha tudo isso — uma arquitetura premiada, uma localização excecional e um património artístico incomparável.”
No fundo, a marca italiana encontrou em Lisboa algo que também define a sua filosofia: uma beleza discreta, construída sobre a coerência e a verdade dos materiais.
Moda, arte e hospitalidade sob o mesmo teto
Com 260 m² distribuídos em dois ambientes distintos — loja e café-bar —, a Eleventy Lisboa foi pensada como um percurso contínuo entre moda, arte e gastronomia. A entrada conduz o visitante ao coração do espaço, onde as coleções masculinas e femininas revelam o estilo preciso e despretensioso que caracteriza a marca: alfaiataria contemporânea, malhas em caxemira, camisas de corte perfeito e acessórios feitos em peles suaves.
Mas a experiência não termina aí. No prolongamento da loja, o café-bar integra-se naturalmente na arquitetura, convidando a permanecer. A carta foi desenvolvida pelo chef italiano Andrea Berton, galardoado com estrela MICHELIN, e propõe uma gastronomia leve, centrada em ingredientes de qualidade e sabores puros — um eco culinário da própria estética da Eleventy.
“Queremos que seja um espaço aberto à cidade”, diz Lurdes Cabral. “Um ponto de encontro para a comunidade criativa, onde aconteçam conversas, exposições e colaborações.”
A ambição é devolver ao edifício o papel de centro cultural e de encontro que teve durante décadas, agora sob a forma de uma hospitalidade contemporânea, onde o luxo é também tempo, atenção e silêncio.
Morada: Avenida da Liberdade, nº266 — Edifício Diário de Notícias, Lisboa
Horário: Segunda a sábado, das 10h00 às 19h00




























