Kering entrega a Gucci a Francesca Bellettini, a gestora italiana que transformou a Saint Laurent. Cabe-lhe agora devolver fôlego à casa de Florença, em plena travessia turbulenta do luxo.
A capital da moda italiana volta a ser palco de mudança. A Kering confirmou que Francesca Bellettini, até agora co-CEO adjunta responsável pelo desenvolvimento de marcas, passa a liderar a Gucci. A nomeação sucede à saída de Stefano Cantino, que permaneceu menos de um ano no cargo, e é o primeiro grande movimento de Luca de Meo, novo CEO do grupo, decidido a simplificar a estrutura e devolver agilidade à casa italiana que, nos últimos trimestres, tem perdido terreno no competitivo tabuleiro do luxo.
De Cesena a Saint Laurent, uma trajetória ascendente
Nascida em 1970 em Cesena, numa família de origens modestas, Bellettini estudou Economia na Universidade Bocconi, em Milão, com uma passagem pela Universidade de Chicago. Começou a carreira em Londres e Nova Iorque no setor da banca de investimento, mas cedo transitou para a moda: integrou o grupo Prada em 1999, passou pela Helmut Lang, pela Gucci e pela Bottega Veneta, acumulando experiência em planeamento estratégico, merchandising e comunicação.
A viragem decisiva aconteceu em 2013, quando assumiu a liderança da Saint Laurent. Durante uma década, transformou a maison numa máquina de crescimento sustentado, com identidade clara e disciplina operacional. Essa capacidade de equilibrar criatividade e performance financeira valeu-lhe a reputação de gestora meticulosa e eficaz, e abriu-lhe a porta ao cargo de deputy CEO da Kering em 2023, com responsabilidade sobre todo o portefólio de marcas.
Gucci em terreno instável
O desafio que agora enfrenta é mais exigente do que nunca. A Gucci atravessa um período de retração: as receitas caíram cerca de 25% no último ano, sinal de fragilidade sobretudo na China e no consumidor aspiracional, mais cauteloso face à inflação e à incerteza económica. Depois de um pico histórico em 2022, acima dos dez mil milhões de euros, a casa viu esfumar-se o ímpeto que, durante a era Alessandro Michele, a tornara fenómeno cultural e comercial.
A instabilidade criativa também deixou marcas: Sabato De Sarno abandonou a direção artística em fevereiro e, em março, a aposta recaiu sobre Demna, vindo da Balenciaga, cuja primeira coleção para a Gucci só será conhecida em 2026. É neste intervalo delicado, entre passado e futuro, que Bellettini terá de segurar as rédeas e recuperar confiança do mercado.
O que está em jogo?
As expectativas sobre o seu mandato são claras: alinhar a nova visão criativa com uma estratégia de produto disciplinada, capaz de gerar desejo e resultados comerciais em simultâneo. A gestora terá de racionalizar o sortido, dar nova força aos ícones da marca e calibrar a rede de lojas e a distribuição para proteger margens.
Mas a missão vai além da execução: trata-se de reposicionar a Gucci no novo paradigma do luxo, menos dependente de volumes e mais atento à autenticidade, à herança artesanal e à relevância cultural. Num momento em que o setor arrefece depois do boom pandémico, com previsão de quedas de 2% a 5% em 2025, o sucesso da Gucci será visto como termómetro para toda a Kering. A nomeação de Francesca Bellettini é, por isso, não apenas um gesto de confiança na sua experiência, mas uma tentativa de devolver protagonismo a uma das casas mais emblemáticas da moda italiana — e de provar que, sob a sua mão firme, a Gucci pode voltar a ditar o ritmo do luxo global.







