Com mais de dois séculos de história, a Leitão & Irmão inicia um novo ciclo criativo com Ricardo Preto, que assume a missão de reoxigenar o legado da casa e projetá-lo para o futuro.
Poucas marcas portuguesas guardam uma relação tão íntima com o tempo como a Leitão & Irmão. Fundada em 1822 e distinguida como joalheira da Coroa Portuguesa e ourives da Casa Imperial do Brasil, a casa sempre soube equilibrar técnica, tradição e sensibilidade. Dois séculos depois, volta a olhar para o futuro com a nomeação de Ricardo Preto como diretor criativo – um movimento que procura consolidar o posicionamento da marca e renovar o seu vocabulário estético.
O designer não subestima o desafio. “Transformar a herança em linguagem viva”, afirma, sublinhando que o passado, para si, é mais impulso do que limite: “A história e o legado não são pessoas; são matéria criativa – o ponto de partida para o que vem a seguir.”
Esta chegada acontece num momento de reestruturação interna, em que a casa tem vindo a consolidar áreas de especialização, como design e marketing. A aposta numa direção criativa estruturada é vista como o passo que faltava para garantir coerência entre oficinas, coleções, narrativa visual e experiência de cliente. Nas palavras de Ricardo Preto, trata-se de “um exercício de renovação lúcida – fazer evoluir a marca sem perder a sua verdade.”
Jorge Leitão, sexta geração da família, acrescenta que a visão do designer une uma perspetiva internacional do luxo ao desejo de valorizar o que é português – um equilíbrio central para o futuro da casa.
O coração da criação
A oficina é o núcleo vital da Leitão & Irmão. É ali que o tempo ganha forma e que o gesto artesanal continua a ser o verdadeiro alicerce da marca. Ricardo Preto vê nessa dimensão manual um património vivo: “O atelier e a loja não são mundos separados — são dois espaços de um mesmo ecossistema criativo.” A oficina guarda a precisão; a loja traduz a emoção.
Quando fala de inovação, recusa simplificações. “A verdadeira inovação nasce do entendimento do que nos antecede.” E acrescenta: “Ao conhecer bem as linguagens e fronteiras estéticas, é possível ser disruptivo sem trair o que foi construído.”
Este equilíbrio é particularmente relevante numa casa que sempre dialogou com a arte. O legado inclui colaborações com figuras como René Lalique, Salvador Dalí ou Columbano Bordalo Pinheiro – uma tradição que Ricardo pretende continuar: “A colaboração serve para expandir o território cultural da casa – cruzando o artesanato com a arte, o design e até a tecnologia — sempre fiel às raízes portuguesas.”
No imediato, o trabalho prevê a revisão e reoxigenação de coleções, a recuperação de arquivos e a construção de uma identidade visual mais unificada. Em 2026, está prevista uma coleção com assinatura própria, que deverá traduzir esta visão 360º.
A experiência do designer na moda – um universo que define como demasiado amplo – transforma-se em lente de observação: “A moda ensina-nos a observar o presente… e a joalharia dá-nos o tempo e a permanência necessários para transformar essa observação em legado.” É neste encontro que se revela, como diz, “a emoção do agora e a solidez do tempo.”
A visão para os próximos anos
Um dos eixos desta nova etapa é a valorização do que o designer identifica como “luxo português”. Uma noção que nasce da geografia, da luz, das mestiçagens culturais que moldam o país: “O encontro desses elementos cria uma forma singular de estar no mundo – sensível, melancólica, luminosa.” É esta identidade que quer ver refletida nas coleções e na narrativa visual da marca.
A sua carreira internacional – das Filipinas ao universo JNcQUOI, da Fashion Clinic à concept store Kollab – dá-lhe amplitude e perspetiva. “Trabalhar em contextos diferentes ensinou-me a olhar o mundo com curiosidade, mas também a reconhecer o valor do que é nosso.” E acrescenta: “A Leitão & Irmão permite-me transformar essa experiência global numa expressão local, fiel à nossa identidade.”
O peso simbólico da casa não é ignorado. “Sinto o peso da responsabilidade de respeitar a herança histórica importante, mas também a herança do folclore português.” Nesta dualidade – entre o protocolo da Coroa e a vida quotidiana -encontra a chave da identidade nacional: “A identidade portuguesa nasce dessa história – entre o poder, o elitismo e o quotidiano.”
No fecho da conversa, deixa uma frase que resume a missão: “Servimos reis, rainhas e a si – com o mesmo rigor, a mesma arte e a mesma emoção.” Para uma casa com 202 anos, talvez não haja melhor modo de entrar no futuro.



















