O Museu Zer0 abre um novo capítulo na arte digital em Portugal, propondo um espaço vivo de criação contínua, onde artistas, território e comunidade constroem um diálogo permanente.
No Barrocal Algarvio, um novo museu inaugura-se em movimento – literalmente. O Museu Zer0, instalado nos antigos silos da Cooperativa Agrícola dos Produtores de Azeite de Santa Catarina da Fonte do Bispo, assume-se como organismo vivo, feito de processos, encontros e experiências que acontecem perante os olhos do visitante. Aqui, a arte digital é fluxo.
Fátima Marques Pereira, programadora-geral da abertura, descreve este nascimento como “um vazio fértil”, um lugar que acumula “experiências, conhecimento e experimentação”. A coleção, diz, “é o próprio tempo, o que se concebe, o que se experimenta, o que se partilha”.
Pensado como oficina viva, o Museu Zer0 desafia a tradição museológica. Desloca o foco da posse para a presença; da acumulação para o acontecimento; do arquivo para a criação. A arte digital – luminosa, mutável, por vezes efémera -encontra aqui um edifício modernista onde o silêncio industrial dos silos convive com instalações imersivas, peças audiovisuais e residências artísticas em curso.
Para a responsável, este é um “espaço-interface”, um laboratório permanente onde se cruzam criação, reflexão e investigação. Entre setembro e outubro, o museu inaugurou-se em dois tempos e permaneceu aberto durante a montagem, convidando os visitantes a acompanhar processos habitualmente invisíveis.
O território como matéria artística
O Barrocal surge como matéria viva. A luz dura, a terra seca, os frutos, o vento e o silêncio infiltram-se nas obras e nos ritmos de criação. “O Barrocal é a voz subterrânea deste projeto”, afirma a programadora. Cada artista trabalha o território como quem decifra uma língua antiga – feita de memórias, identidade e transformação.
Essa relação torna-se evidente no II Momento da abertura, onde instalações sonoras, vídeo mapping, performances e trabalhos desenvolvidos em residência ocupam silos, salas imersivas, pátios e espaços industriais renascidos para nova função.
As residências artísticas são o eixo estruturante do Museu Zer0. Não se limitam à criação: são espaço de pesquisa, experimentação e diálogo contínuo com o lugar e a comunidade. Fátima Marques Pereira descreve-as como “uma oficina renascentista contemporânea”, onde processos têm tanto valor quanto resultados.
As linhas de investigação iniciais incluem ecologia digital, memória sonora, relações entre paisagem e tecnologia e novas formas de participação comunitária. “Mais do que nomes, importam os processos”, sublinha.
Arte digital para todos
A mediação cultural é pilar central do projeto e procura romper a ideia de que a arte digital é hermética. O museu promove visitas guiadas, oficinas intergeracionais, conversas abertas, open studios e atividades que aproximam escolas, habitantes e artistas. “O digital não é fronteira, é ponte”, reforça a programadora-geral.
O objetivo é criar experiências que toquem o corpo, despertem curiosidade e devolvam às pessoas a liberdade de interpretar, sentir e interagir com a arte contemporânea. Aqui, a tecnologia não afasta – aproxima.
Depois de sete anos a preparar este momento, a programadora recorda a emoção da abertura: “Uma casa cheia de luz e de pessoas, uma casa que respira.” Em torno de uma mesa na cooperativa, com artistas, equipa e comunidade reunidos, percebeu que o museu já existia plenamente como encontro.
Se tivesse de escolher uma palavra para definir o Museu Zer0, não hesita: “Porvir”. O futuro, aqui, é gesto contínuo, construído dia após dia, obra após obra.
Morada: Cooperativa Agrícola dos Produtores de Azeite de Santa Catarina da Fonte do Bispo (CAPA), Tavira, Algarve
Email: geral@museu0.pt
Horário: Quarta a domingo, 10h00–18h00
Entrada: Gratuita















