A artista dinamarquesa Nina Beier apresenta a sua primeira exposição a solo em Portugal. Goods inaugura este fim-de-semana na Albuquerque Foundation, em Sintra, e mergulha nas tensões entre valor económico e simbólico.
A Albuquerque Foundation, em Sintra, recebe a primeira exposição individual em Portugal de Nina Beier. A artista dinamarquesa, que vive entre Copenhaga e Berlim, construiu a sua carreira ao transformar objetos banais em esculturas que revelam tensões entre valor económico e simbólico, permanência e obsolescência, poder e fragilidade. Em Goods, título da mostra, o diálogo com a excecional coleção de porcelana chinesa da fundação torna-se inevitável, convocando histórias de circulação global e curtos-circuitos do capitalismo.
Um diálogo com a história
Entre porcelanas Ming e Qing — peças que outrora simbolizaram estatuto social e poder político — surgem esculturas que desestabilizam convenções. Para Jacopo Crivelli Visconti, diretor da Albuquerque Foundation e curador da exposição, esse diálogo faz todo o sentido: “O trabalho de Nina ressoa com públicos em qualquer lugar, mas os temas que aborda — circulação e troca de bens, materiais e iconografias numa escala global — são particularmente relevantes para a história de Portugal. Estou certo de que o público local se identificará de forma muito natural com isso.”
A própria artista reconhece que foi o contexto da coleção a orientar a seleção de obras: “O Jacopo teve a ideia de organizar uma exposição com peças já existentes minhas, porque o meu trabalho, de diferentes formas, reflete algumas das tensões presentes na coleção. O contexto guiou a escolha.”
Objetos com excesso de significado
Ao longo da última década, Beier tem procurado objetos saturados de sentido, muitas vezes caídos em desuso. “Procuro coisas que já tenham um excedente de significado embutido nelas — objetos produzidos coletivamente, repetidos por diferentes pessoas, em diferentes lugares e em diferentes momentos. Interessa-me quando estes itens chegam ao mercado de segunda mão, já fora de moda, já fora de favor. Nesse instante, conseguimos vê-los de outra forma, à distância, pelo que são.”
Essa abordagem reflete-se em obras como Business, onde braços retirados de gatos da sorte (os maneki-neko das lojas asiáticas) acenam em copos descartáveis, transformando símbolos de prosperidade em gestos absurdos. Ou em Plug, série de lavatórios de porcelana em tons pastel, atravessados por charutos enrolados à mão nos ralos — um jogo entre mercadoria e signo cultural, utilidade e ostentação.
Para Beier, o interesse está precisamente na colisão destes registos: “Interessa-me como um objeto pode ser simultaneamente mercadoria e signo cultural, matéria-prima e objeto processado, manifestação do trabalho que nele foi investido e símbolo. Quando estes registos colidem, podem intensificar-se ou anular-se mutuamente. É nesse atrito que procuro tornar visíveis os mecanismos de atribuição de valor.”
Ironia, cuidado e fragilidade
Se há ironia no trabalho de Beier, não é no sentido de escárnio. “Se ironia é o desfasamento entre o que é mostrado, dito ou esperado e o que é revelado, então todo o meu trabalho se situa nesse lugar”, explica. “Quando coloco objetos em novas constelações, fora do seu propósito original, gera-se uma estranheza. Essa distância pode soar absurda — e, se tiver sorte, abre uma janela para a fragilidade dos sistemas que esses objetos foram feitos para sustentar.”
Esse olhar atravessa obras como Guardians, em que monumentais leões de mármore — figuras associadas à proteção de templos e palácios — deixam de ser sentinelas para se tornarem gamelas de leite e comida para pássaros. E prolonga-se em Islands, instalada no jardim da fundação: fragmentos de tampos de mármore, outrora valorizados em cozinhas e casas de banho, são agora plataformas de onde a relva brota livremente.
Aqui, o curador sublinha o papel do cuidado: “Cuidamos mais da relva que cortamos ou da relva que deixamos crescer? Quem cuidou desses tampos de cozinha antes de serem retirados e transformados em obra? Até que ponto cuidar de um objeto é também cuidar das pessoas que o usam?”
A exposição Goods confirma a consistência de uma artista que já passou pelo Centre Pompidou, Tate Modern ou Bienal de São Paulo, mas que agora se apresenta pela primeira vez em Portugal. Para Jacopo, tentar resumi-la seria um contrassenso: “O central no trabalho da Nina é que nunca pode ser realmente reduzido a uma só ideia. Está constantemente a seguir várias direções ao mesmo tempo. É isso que gostaria que os visitantes levassem consigo.”
Entre porcelanas imperiais e esculturas que parecem desmontar sistemas de valor, Nina Beier convida-nos a repensar o que damos por adquirido. Em Sintra, as coisas ganham, de novo, um brilho instável.
Goods — Nina Beier
Albuquerque Foundation
Morada: Rua António dos Reis nº189, Sintra
Horários: Terça a domingo, das 10h00 às 18h00 (encerra às segundas-feiras)
27 setembro 2025 — 4 janeiro 2026













