No ano em que se assinalam 15 anos da morte de José Saramago, Lisboa revela-se pela sua escrita. Um convite a regressar à cidade guiados pelas memórias e palavras do Nobel português.
Lisboa foi sempre mais do que mero cenário para José Saramago — foi a matéria viva da escrita, o palco e a personagem de uma narrativa que pulsa nas suas páginas. Embora tenha nascido no Ribatejo, foi na capital que se enraizou e de onde tirou inspiração para revelar, em múltiplas facetas, os seus lugares e personagens. A cidade surge em obras como Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, História do Cerco de Lisboa e Levantado do Chão, desenhando um mapa literário que percorre Alfama, Castelo, Baixa, Bairro Alto e Chiado.
Em 2025 assinalam-se 15 anos sobre a sua morte, efeméride que devolveu Lisboa ao centro das homenagens. A Fundação José Saramago abriu as portas da Casa dos Bicos com entrada livre, apresentou um documentário inédito e promoveu debates em torno da sua obra — lembrando que a literatura continua a ser uma forma de presença.
Em Viagem a Portugal, Saramago convida-nos a observar Lisboa com vagar, “como quem descobre pela primeira vez aquilo que sempre esteve diante dos olhos”. Essa intimidade com a cidade foi tantas vezes notada por leitores e críticos, que a descrevem como a sua ‘soul city’ — um território de afetos, contradições e memória. Revisitar Lisboa com Saramago é regressar a uma cidade recriada pela literatura, sempre pronta a revelar novos segredos.
A fé e o poder em São Roque
Na Igreja de São Roque, no coração do Bairro Alto, Dona Maria Ana Josefa rezava as suas novenas, e é aí que se iniciam algumas das cenas do Memorial do Convento. Para Saramago, o espaço religioso era também palco político. “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”, recorda-nos o autor. O olhar atento descobre não apenas o esplendor barroco da talha dourada, mas também a encenação do poder.
Para quem a visita hoje, a igreja guarda alguns dos mais notáveis tesouros do barroco europeu. O destaque vai para a Capela de São João Baptista, construída em Roma com materiais preciosos — lápis-lazúli, mármores raros, mosaicos venezianos — e transportada peça a peça para Lisboa no século XVIII. Merecem também atenção os painéis de azulejo maneiristas, os tetos pintados em perspetiva ilusionista e o Museu de São Roque, com coleções de arte sacra, ourivesaria e pintura. Um lugar onde a espiritualidade convive com a ostentação artística, exatamente como Saramago intuiu.
O encontro de Blimunda e Baltasar
Da Igreja de São Roque subimos até à Costa do Castelo. É neste cenário que Blimunda e Baltasar se cruzam pela primeira vez, transformando Lisboa em palco de um amor literário que desafia o tempo. “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.” Ler esta frase no alto da colina, com o Tejo em fundo, é perceber que Saramago soube transformar a cidade em cúmplice das suas personagens.
Hoje, quem percorre a encosta junto ao Castelo de São Jorge encontra um dos miradouros mais autênticos da cidade, com vista sobre Alfama, a Sé e o rio. O Miradouro da Costa do Castelo é um refúgio menos concorrido do que outros pontos turísticos, ideal para saborear a cidade com calma. Nas ruas vizinhas, multiplicam-se pequenos recantos que evocam a Lisboa antiga: o Chafariz do Rei, as escadinhas da Mouraria, ou o Largo do Chão do Loureiro, onde a vida de bairro ainda resiste.
Para prolongar a experiência, vale a pena reservar mesa no Clube de Fado, a poucos minutos dali, onde a música ecoa paredes com mais de quinhentos anos, ou subir ao Zambeze, restaurante instalado nas antigas muralhas, que conjuga cozinha portuguesa e moçambicana com vistas sobre o Tejo. Outra opção, mais discreta, é procurar as pequenas tascas familiares nas vielas de Alfama, onde se descobre a Lisboa quotidiana que Saramago soube observar.
O peso de Mafra, o silêncio da Tapada
A rota estende-se além de Lisboa. Em Mafra, o palácio monumental ergue-se como a grande obsessão de D. João V e centro do Memorial do Convento. “Homens de barro somos, e de barro é a obra que nos mandam fazer.” Nas salas da biblioteca ou da enfermaria, sente-se ainda a memória dos que ergueram a pedra a pedra.
Hoje, o Palácio Nacional de Mafra é Património Mundial da UNESCO e continua a impressionar pela escala: a basílica em mármore, os 98 sinos do carrilhão, os seis órgãos monumentais, e sobretudo a biblioteca barroca, com mais de 36 mil volumes guardados por colónias de morcegos que os protegem de pragas. É um lugar onde a grandiosidade convive com pormenores inesperados, lembrando a ironia fina com que Saramago abordava o poder.
À volta, a Tapada de Mafra oferece um outro ritmo: 819 hectares de mata fechada, criados para a caça real no século XVIII, hoje transformados em área protegida. Veados, gamos e javalis percorrem trilhos onde é possível caminhar, andar de bicicleta ou observar aves. Se o convento revela a ambição humana, a Tapada devolve-nos à simplicidade do silêncio natural.
Palavras na pedra: a Casa dos Bicos
De volta à cidade, a Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago, torna-se ponto final e ponto de partida. Sob a oliveira vinda da Azinhaga repousam as suas cinzas, lembrando que a raiz nunca se apaga. “Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos.”
Para o visitante, a Casa dos Bicos oferece hoje mais do que memória. A fachada renascentista, com pedras talhadas em forma de diamante, é uma das mais singulares da cidade. No interior, além da programação literária da Fundação, podem ver-se achados arqueológicos romanos e exposições temporárias. É um espaço onde o passado, a literatura e a cidade dialogam — à imagem da própria escrita de Saramago.
À saída, vale a pena prolongar o passeio pela envolvente. A poucos passos, encontra-se a Praça do Comércio, ponto de partida de muitos dos enredos da cidade, e a Rua dos Bacalhoeiros, hoje com cafés discretos que convidam a uma pausa. Para um café literário, sugere-se o Martinho da Arcada, o mais antigo de Lisboa, frequentado por Fernando Pessoa e por tantas figuras da vida cultural. Quem preferir explorar livrarias, pode subir até à Ler Devagar, no Cais do Sodré, ou atravessar o Chiado até à Bertrand, a mais antiga do mundo ainda em atividade. Assim, o percurso não termina na Casa dos Bicos, mas abre-se a um mapa literário mais vasto, no qual Lisboa e os livros se confundem.
Lisboa nunca foi postal na obra de Saramago. É contraditória, luminosa e áspera, feita de histórias anónimas e de memórias coletivas. Seguir os seus passos é regressar a uma cidade que se reinventa a cada leitura e a cada regresso. Como escreveu no Caderno: “Não é preciso sair de casa para viajar. Fica-se sentado e deixa-se que as coisas aconteçam.” Com Saramago, Lisboa é precisamente isso — uma viagem sem fim.












