No LX Factory, a The Feeting Room inaugura um novo espaço que reafirma a sua vocação de unir moda, arte e comunidade. Uma loja que pensa o retalho como experiência — e não apenas como venda.
Quando Guilherme Pinto de Oliveira fala da The Feeting Room, fá-lo com a convicção de quem acredita que o retalho ainda tem muito para reinventar. “Hoje, o retail tem de ser muito mais do que uma compra — tem de ser uma experiência”, afirma o cofundador e CEO da marca portuguesa, que acaba de abrir o seu quarto espaço físico, o segundo em Lisboa, agora no LX Factory.
Com 220 metros quadrados, a nova loja reforça a presença na capital e traduz o espírito da marca: curadoria independente, experimentação e um diálogo constante entre moda, arte e comunidade. “Queremos que cada loja conte uma história diferente. Não queremos que todas pareçam iguais”, explica Guilherme em conversa com a Fora de Série. “Cada espaço tem o seu espírito e a nossa missão é interpretá-lo.”
No caso do LX Factory, o ponto de partida foi a memória do lugar. Instalado numa antiga fábrica, o novo espaço integra no centro da loja uma peça improvável: um transportador industrial de sapatos, com dez metros de comprimento, adquirido a uma das fábricas parceiras da marca. “É a peça central da produção — transporta o sapato de um operador para o outro. Decidimos trazê-la para o centro da loja, como homenagem à herança industrial do edifício e ao nosso ADN ligado à produção portuguesa.” O resultado é um elemento cenográfico de forte impacto visual que, além de funcionar, serve também como expositor.
Entre curadoria e criação
A The Feeting Room nasceu há cerca de uma década, no Porto, como um projeto de retalho que dava corpo a uma ideia simples: apoiar marcas de moda independentes, sobretudo portuguesas. “Começámos como empresa de consultoria estratégica para marcas de moda. Depois percebemos que fazia sentido ter um braço de retalho, para apoiar as marcas de forma mais completa”, recorda o CEO.
O primeiro espaço, inaugurado em formato pop-up, rapidamente se tornou num caso de sucesso, evoluindo para uma flagship store. Seguiram-se Lisboa, o Chiado e, mais tarde, a LOT – Labels of Tomorrow, um conceito mais ambicioso que combina loja, galeria, restaurante e bar de cocktails. Hoje, o retalho representa cerca de 90% da atividade do grupo, mas a relação com as marcas mantém-se próxima. “Continuamos a prestar consultoria, a trabalhar lado a lado com as marcas parceiras. É uma relação de co-criação.”
Essa proximidade deu origem à Coup D’État, marca própria lançada em 2024. “Foi um passo natural”, admite Guilherme. “Identificámos lacunas no mercado e percebemos que tínhamos o conhecimento, os parceiros e a capacidade de produção local para responder a essas necessidades.” Com design contemporâneo e produção integral num raio de 60 quilómetros do Porto, a Coup D’État inspira-se na herança cultural portuguesa e no espírito de mudança.
Para celebrar a abertura do novo espaço no LX Factory, a marca lançou uma edição limitada de lenços e t-shirts Coup D’État x The Feeting Room — apenas cem unidades, produzidas em tons de pistácio, a cor que deu tema à festa de inauguração. “Foi a nossa ‘Pistachio Party’”, ri-se Guilherme. “Uma forma de celebrar este marco com humor e leveza.”
Um espaço que vive de experiências
A The Feeting Room nunca quis ser apenas uma loja. “Vendemos livros, revistas, cafés e bolos artesanais. Queremos que as pessoas venham, fiquem, experimentem e regressem”, resume Guilherme. O objetivo é transformar o retalho num espaço de convivência e descoberta — um verdadeiro hub cultural.
Na LOT – Labels of Tomorrow, inaugurada em 2022 no Porto, essa visão é levada mais longe. Com 800 metros quadrados, o espaço reúne retalho, gastronomia e arte, num ambiente cosmopolita. “Temos restaurante, bar de cocktails, e fazemos colaborações com várias entidades culturais”, explica. “Já tivemos exposições com a galeria Underdogs e pop-ups com a Plato, uma galeria de arte contemporânea de Évora. Queremos que as pessoas encontrem sempre algo novo.”
A aposta em experiências imersivas é, para o fundador, a resposta à transformação do consumo. “As pessoas compram online, é um facto. O nosso desafio é criar espaços diferenciadores, que ofereçam algo que o digital não consegue replicar: emoção, surpresa, pertença.”
Portugal em foco, olhos no mundo
Apesar de a The Feeting Room atrair sobretudo turistas — fruto das localizações estratégicas e do apelo internacional das marcas que representa —, o público português começa também a ganhar expressão. “Temos já uma base fiel de clientes portugueses que procuram produtos diferenciadores e que confiam na nossa curadoria”, sublinha Guilherme.
O futuro, no entanto, continua a desenhar-se com calma e pragmatismo. “Estamos focados em crescer em Portugal. Há mercado, há margem, e o país está num momento espetacular. Está debaixo dos holofotes, e queremos aproveitar isso.”
A curto prazo, os planos passam por abrir um espaço da LOT em Lisboa, assim que surja a localização ideal, e por avaliar novas aberturas em Braga. “Lisboa tem escala para receber um conceito como o da LOT. Já identificámos a área onde faria sentido — na zona da Rua da Boa Vista ou do Cais do Sodré — e estamos à procura do espaço certo.”
Quanto à internacionalização, o tema esteve em cima da mesa antes da pandemia. “Estávamos prestes a dar esse passo quando chegou a Covid, que nos afetou muito, porque estávamos expostos ao turismo e o online ainda não estava tão desenvolvido”, recorda. “Decidimos recuar para depois avançar com mais força.”
De consultoria a retalho, de curadoria a criação, a The Feeting Room tornou-se num ecossistema em constante movimento — um ponto de encontro entre designers, artistas e consumidores curiosos. “O nosso papel é ligar pessoas e ideias”, resume o fundador. “Identificar o que o consumidor procura e apresentar-lhe produtos que façam sentido nos vários momentos da sua vida.”
Hoje, mais do que uma concept store, a The Feeting Room é uma forma de ver o mundo: feita de autenticidade, criatividade e um profundo respeito pela produção local. Um lugar onde o luxo não está no preço, mas na descoberta.























